Passei anos dos dois lados da mesa. Foi ali que entendi o problema.
Comecei na Falconi, a principal consultoria de gestão do Brasil, montando análises e desdobrando metas para grandes empresas. Via a gestão de fora, no papel.
Depois atravessei a mesa. Como Diretor Regional numa distribuidora de gás, assumi um P&L de cerca de um bilhão de reais, setecentas pessoas, reporte direto ao CEO. Ali eu não montava mais o relatório do resultado. Eu era responsável por produzi-lo.
E foi na primeira reunião de resultados que precisei conduzir como executivo, e não como consultor, que a ficha caiu. Existe uma distância enorme entre apresentar o número que já aconteceu e ir a campo mudar o número enquanto ainda dá tempo. A maioria das empresas vive do primeiro lado dessa distância. E não é por incompetência. É pelo modelo que todos nós aprendemos a seguir.
Vi o mesmo padrão se repetir por mais de vinte anos.
Farmacêutica, banco, siderurgia, varejo, logística, energia, papel e celulose, educação, saúde, aviação, setor público. Empresa familiar, profissionalizada, de capital aberto. Em mais de vinte anos entrando na gestão de empresas de praticamente todo setor da economia real, eu vi a mesma assinatura aparecer, sem depender do porte, do setor ou da cultura.
As empresas medem o resultado financeiro com rigor, o placar, e deixam sem gestão a cadeia que produz esse resultado: a causa, o processo, a execução no meio do caminho. Cobram o time pelo número que ele não controla, e deixam no escuro o único lugar onde o resultado ainda poderia mudar.
Chamo isso de gestão-por-placar. Não é o azar de uma empresa. É um padrão. E padrão tem causa.
Diagnóstico do passado, qualquer um faz.
É fácil virar especialista depois. Depois que o mercado parou, a crise passou, a empresa fechou. O mundo está cheio de análises brilhantes sobre o que já aconteceu.
O meu trabalho é outro. Eu entro enquanto ainda dá para agir, faço a provocação no nível estratégico que dói o suficiente para mover as pessoas no presente, e busco entregar um resultado rápido logo de início, porque é assim que se prova, na prática, que dava para mudar.
Onde eu passo, tenho que me pagar. Rápido.
Como eu trabalho.
Não trago um modelo de fora para instalar por cima do que a empresa já tem. Começo pelo que ela já mede, o farol, o book de metas, a carteira de iniciativas, e mostro, com número, onde a estratégia declarada não aparece na medição.
Tenho bagagem, mas não me escondo atrás de framework. Respeito a cultura e a liderança de cada empresa, e sei fazer a provocação sem ofender, transitar sem invadir, influenciar sem constranger. Coloco a mão na massa, compartilho o que sei, as ferramentas, a rede. Meu networking passa a ser o seu.
Não navego no hype. Estou sempre aberto ao novo, mas testo pequeno e rápido antes de acreditar. Não sou o inovador de palco, não sou coach, não digo o que o cliente quer ouvir. Digo o que precisa ser dito, com respeito, no timing certo e com precisão.
O que me move.
Estratégia só vale quando vira resultado, e resultado só muda enquanto o jogo ainda está em andamento. Passei a carreira aprendendo a enxergar onde ele está sendo perdido, no meio do caminho, longe do placar. É isso que eu faço: trago a gestão de volta para o ponto onde ela ainda muda alguma coisa.
Átila Persici passou os últimos vinte anos entre a consultoria de gestão e a direção executiva. Hoje diagnostica a distância entre a estratégia que as empresas declaram e o que elas de fato medem. Colunista da HSM Management.